IMPRENSA
Até
o NY Times se rende aos gays
O conservador jornal americano publicou
ontem, pela primeira vez em sua história, o anúncio de uma união civil
entre homossexuais. A decisão repercutiu no mundo, mas jornalistas
responderam que apenas seguem tendência
Da
Redação
Com agências
Deu
no The New York Times neste domingo: Daniel Andrew Gross e Steven
Goldstein, ambos pertencentes ao sexo masculino, se uniriam, ontem
mesmo, em uma cerimônia civil em North Hero, no estado de Vermont.
Até aí, nada de mais. Estamos acostumados a, todos os dias, ouvir
falar em casamento de gays ou lésbicas em alguma parte do mundo. Mas
não no The New York Times. Pela primeira vez, o jornal norte-americano
— um dos mais respeitados e conservadores do mundo — publicou, em
sua seção Casamentos, o anúncio de uma união homossexual, com direito
a biografia e até a data que o casal se conheceu.
A mudança não aconteceu de repente. O diário já havia anunciado suas
intenções em meados de agosto. No dia 18, portanto: ‘‘A partir do
próximo mês, a seção Sunday Styles (que traz anúncios de casamentos,
entre outros) do The New York Times publicará notícias de cerimônias
de casamento entre pessoas do mesmo sexo (...) Na ocasião, a coluna
será dedicada a um casal de mesmo sexo’’. Até o título da seção mudou
de apenas ‘‘Casamentos’’ para ‘‘Casamentos / Celebrações’’.
Dito e feito, Gross e Goldstein foram o primeiro casal gay a merecer
a nota na edição de ontem do jornal. E o fato repercutiu em sites
do mundo.
Sobre a nova orientação, o diretor de redação do The New York Times,
Howell Raines, explicou: ‘‘Estamos tomando partido de uma tendência
crescente, e visível na sociedade, que é a da multiplicação das celebrações
públicas de uniões de casais homossexuais — são celebrações importantes
aos olhos de muitos de nossos leitores, suas famílias e seus amigos’’.
A tendência, aliás, já é seguida por outros jornais, como o Washington
Post, o Chicago Tribune e o San Francisco Chronicle. O próprio ex-prefeito
de Nova York, Rudolph Giuliani, despiu-se de preconceitos ao mudar-se
para uma casa de dois amigos gays após separar-se da mulher.
Biografia do casal
E quem são, afinal, os noivos Daniel Andrew Gross e Steven Goldstein?
O primeiro tem 32 anos, é vice presidente da GE Capital, no estado
de Connecticut, e trabalha no financiamento de projetos internacionais
como usinas de eletricidade e dutos. Graduou-se pela Universidade
de Yale, onde também fez o MBA e o mestrado em gestão ambiental. Passou
uma temporada na Tailândia, entre 1994 e 1995, onde fez estudos sobre
meio ambiente no Instituto Asiático de Tecnologia.
Gross pertence a uma próspera família de Chicago. É filho de Merle
e Barry Gross. A mãe dirige a Merle Ltda., uma confecção de paletós
da cidade. O pai é aposentado como sócio do Shefsky & Froelich,
um escritório de advocacia.
Steven Goldstein, por sua vez, tem 40 anos. É fundador e proprietário
da Attention America, uma firma de consultoria para negócios públicos
em Manhattan. Trabalhou na campanha de Jon S. Corzine para o Senado
norte-americano, por New Jersey, em 2000. Estudou nas universidades
de Brandeis, Harvard e Columbia. Graduou-se em Direito e fez mestrado
em Política Pública e em Jornalismo.
O casal se conheceu em outubro de 1992, em Washington. Na época, Goldstein
trabalhava como produtor de um telejornal. Ele foi uma 35 pessoas
que responderam a um anúncio de Daniel Gross no Washington City Paper.
Judeu simpático, divertido, o tipo de filho que toda mãe gostaria
de ter, eram apenas algumas das características do jovem Gross, então
com 22 anos. Os dois marcaram de se encontrar uma noite numa livraria.
O segundo encontro aconteceu na noite seguinte.
Depois do episódio, Gross foi visitar os pais. E a mãe, que não é
boba, logo notou que o filho estava diferente. ‘‘Você está ótimo.
Parece até que está apaixonado’’, disse ela. Daniel Gross apenas respondeu:
‘‘Eu estou. O nome dele é Steven.’’ Um ‘‘oh’’ seguido de um instante
de silêncio foi a reação de Merle Gross. Passado o primeiro susto,
os pais se acostumaram com a opção sexual dos filhos.
E a história de amor continua. Durante o tempo que Gross passou na
Tailândia, a conta telefônica de Goldstein batia nos US$ 1,5 mil.
Em 1998, estudos concluídos, os dois se mudaram juntos para Nova York.
Dois anos depois, os rabinos judeus deram seu aval ao casamento gay.
No estado de Vermont, perto de Nova York, a legislação estabeleceu
a união civil homossexual. Mas foram os atentados do 11 de setembro
que levaram Gross e Goldstein a tomar a decisão de se unirem para
sempre: eles descobriram que não eram imortais.
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